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Ronaldo Fraga destaca a união entre moda e agronegócio no SPFW com Sou de Algodão

O São Paulo Fashion Week (SPFW) recebeu o desfile de Ronaldo Fraga, que apresentou a coleção "Cartas de Algodão", unindo a cultura brasileira ao agronegócio, evidenciando a importância do algodão nacional.

No São Paulo Fashion Week (SPFW), o algodão brasileiro deixou suas raízes nas lavouras para brilhar na passarela. Em um espetáculo que misturou varais de roupas, bordados e elementos da cultura nacional, Ronaldo Fraga apresentou uma coleção que vai além da moda, ressaltando a interação entre o agronegócio e a indústria têxtil do país.

O desfile, realizado no dia 15 de outubro no Pavilhão das Culturas Brasileiras, em São Paulo, trouxe à tona a coleção Cartas de Algodão, elaborada em comemoração aos dez anos do Sou de Algodão, um movimento promovido pela Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa).

A escolha do estilista mineiro, famoso por incorporar elementos culturais brasileiros em suas criações, reforça uma estratégia que vem sendo desenvolvida ao longo da última década, visando estreitar a relação entre a produção agrícola e o consumidor final, além de valorizar o algodão nacional.

Esse movimento ganha força quando analisamos os dados econômicos do setor. Na safra comercial de 2025/26, o Brasil atingiu um recorde de exportações de 3,37 milhões de toneladas de algodão, um aumento de 19% em comparação ao ano anterior. O total das vendas internacionais alcançou US$ 5,3 bilhões, conforme informações da Abrapa.

A China liderou as importações, adquirindo aproximadamente 770,5 mil toneladas, seguida por países como Bangladesh, Turquia, Paquistão, Vietnã e Índia. Esse desempenho solidificou a posição do Brasil como líder mundial nas exportações dessa fibra, evidenciando a importância de estratégias que agreguem valor à produção nacional.

Sou de Algodão: do campo à passarela

O Sou de Algodão foi criado em 2016 durante o SPFW com o intuito de conectar diversas etapas da cadeia produtiva do algodão.

Ao contrário de uma marca de vestuário convencional, o movimento foca na promoção da fibra brasileira, unindo produtores, fornecedores, indústrias, estilistas e varejistas. O objetivo é aumentar a conscientização sobre a origem do algodão, seus métodos de produção e suas aplicações no mercado.

Com dez anos de existência, a iniciativa realizou seu quinto desfile na semana de moda, desta vez com a assinatura de Ronaldo Fraga, que também celebra três décadas de carreira.

“O Sou de Algodão nasceu no SPFW em 2016 e comemorar os 10 anos dessa iniciativa onde tudo começou é muito simbólico para nós”, declarou Renata Caixeta, gerente de Desenvolvimento de Negócios da Abrapa, em um comunicado divulgado antes do evento.

A colaboração entre o movimento e o estilista é um passo importante para estreitar os laços entre o agronegócio e o setor criativo. Associar a fibra brasileira ao trabalho de um renomado estilista ajuda a aumentar a visibilidade do algodão, destacando atributos como origem, qualidade e valorização da produção nacional.

Esse vínculo também reflete a importância da indústria têxtil brasileira. Segundo o relatório Brasil Têxtil 2026, elaborado pelo IEMI com apoio da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) e do Senai Cetiqt, o setor emprega cerca de 1,3 milhão de pessoas no país.

A cadeia produtiva abrange desde a transformação de fibras em fios e tecidos até a fabricação e venda de produtos acabados, incorporando tecnologia, design e especialização ao valor comercial da matéria-prima agrícola.

Ronaldo Fraga e a identidade brasileira

Na passarela, essa jornada foi traduzida em uma interpretação rica em memória e cultura.

A cenografia apresentou varais com roupas de algodão penduradas, evocando o cotidiano familiar, os enxovais e vestimentas que atravessam gerações. O cenário, que dialoga com as criações, reforçou a presença do tecido na vida diária e a conexão emocional que se forma em torno das roupas.

A coleção incluiu vestidos, peças de alfaiataria, rendas, crochês, bordados e patchwork. As cores predominantes, como branco, bege e marrom, estavam acompanhadas de estampas inspiradas em cartas antigas e envelopes, que deram origem ao nome Cartas de Algodão.

A artista têxtil Bianca Ramoneda colaborou no desenvolvimento criativo, incorporando palavras e poesias, além de pequenos envelopes de tecido costurados às peças, transformando cada vestuário em um registro de histórias e memórias.

O reaproveitamento de resíduos têxteis também se destacou em algumas das criações. Nos dois primeiros looks, fragmentos de tecidos, rendas e crochês foram reunidos em patchworks, evidenciando a possibilidade de utilizar materiais que poderiam ser descartados.

A valorização das técnicas manuais, característica do trabalho de Ronaldo Fraga, trouxe à passarela práticas que fazem parte da cadeia da moda brasileira, como modelagem, costura e bordado.

Esse conjunto de habilidades não é apenas um recurso estético, mas também destaca o papel da criação e do conhecimento especializado na diferenciação de produtos. Em um setor altamente competitivo, identidade, qualidade e design podem aumentar o valor agregado das peças.

Desafios do algodão brasileiro: rastreabilidade e competitividade

A valorização da fibra nacional é uma resposta às mudanças no mercado global, especialmente com o crescimento das fibras sintéticas.

Durante o Congresso Internacional da Abit, realizado em 14 e 15 de outubro em Fortaleza, representantes do setor ressaltaram que a participação do algodão no mercado global de fibras, que ultrapassava 50% há cerca de quarenta anos, atualmente gira em torno de 22%.

Esse panorama reforça a necessidade de investimento em qualidade, inovação e diferenciação comercial para garantir a competitividade da fibra natural.

No Brasil, algumas iniciativas já estão em andamento, focadas em certificação e rastreabilidade. Na safra 2024/25, 79% da produção nacional de algodão recebeu a certificação socioambiental Algodão Brasileiro Responsável (ABR), conforme a associação.

A estrutura de controle de qualidade também evoluiu. Um relatório da Abrapa, divulgado em 9 de outubro, indicou que mais de 10,1 milhões de fardos da safra 2025/26 passaram por análises instrumentais até setembro, representando 54% do total previsto.

Esse monitoramento se conecta ao programa SouABR do Sou de Algodão, que utiliza tecnologia blockchain para rastrear a jornada da matéria-prima desde a fazenda até o produto final, permitindo que o consumidor acesse informações sobre a origem através de QR Code.

Em 2025, o programa registrou 319.647 peças rastreáveis, com a participação de oito marcas e varejistas, incluindo Calvin Klein, C&A, Döhler e Dudalina, além de 110 produtores e 168 fazendas.

A rastreabilidade conecta informações do campo aos produtos disponíveis nas lojas, proporcionando às empresas uma ferramenta de transparência e diferenciação, ao mesmo tempo que aproxima os consumidores das etapas de fabricação das roupas.

SPFW: uma ponte entre agronegócio e negócios

A presença do Sou de Algodão no SPFW é significativa no contexto comercial. A semana de moda atua como uma plataforma de exposição e relacionamento entre criadores, fornecedores, marcas e empresas, influenciando diversas atividades econômicas.

Além dos desfiles, o evento envolve profissionais de produção, logística, tecnologia, comunicação, serviços e indústria criativa. Em 2025, Paulo Borges, idealizador do SPFW, estimou um impacto econômico de cerca de R$ 1,5 bilhão associado a uma edição, considerando as atividades e negócios realizados durante a programação, não representando faturamento direto da organização.

Para a Abrapa, essa participação é uma oportunidade de dialogar com empresas que transformam o algodão em produtos e que impactam as decisões de consumo.

A estratégia vai além das passarelas. Em setembro, durante o 15º Congresso Brasileiro do Algodão, realizado em Belo Horizonte, o Sou de Algodão lançou uma loja oficial com produtos próprios, incluindo peças rastreadas, ampliando a aproximação com o consumidor.

A colaboração com Ronaldo Fraga enriquece esse movimento ao trazer à tona a criação autoral e a valorização da cultura brasileira, ligando a produção agrícola de grande escala à identidade da moda nacional.

O Brasil, que já é líder global na exportação de algodão, enfrenta o desafio de não apenas aumentar volumes e conquistar novos mercados, mas também de fortalecer a integração entre diferentes segmentos produtivos e criar oportunidades que agreguem maior valor.

Ao levar essa discussão ao SPFW, o Sou de Algodão demonstrou como a moda pode ser um elo entre o campo, a indústria e o consumidor, ampliando a visibilidade de uma cadeia que tem suas raízes no agronegócio, mas que gera negócios que vão muito além das lavouras.

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